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Doces Tardes


imagem de Christina Thedim

Por Christina ThedimPublicado em11 Setembro 2009

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Tempo faz que, deitada de bruços, sob um escaldante sol, nas areias finas de uma antiga Ipanema, Lidia sentiu-se verdadeiramente dona do mundo. Havia plena consciência de que não era pequeno o desafio que tinha pela frente, início de uma adolescência cheia de encantamento, paixões e revoluções de costumes. Mas uma força interior, uma curiosidade latente _  tão própria da juventude _  não cedeu espaço para o medo de ousar.  Seguiu trilhando os muitos caminhos, sempre incertos, ditados por um coração constantemente apaixonado.

Assim, de bruços, nas areias agora de textura bem mais encorpada, lembrava-se, como num filme, de cada etapa de sua louca vida... O frescobol ao lado, coberto pela areia, para que o sol não empenasse as raquetes de madeira, como eram nos idos da década de setenta, aguardava ansioso um bom parceiro, a fim de dar vazão, com cortadas de direita e esquerda, essas uma especialidade sua, a tanta energia vital que trazemos aos dezoito. A galera se reunia no píer da rua Teixeira de Mello, numa mesma roda, com Gal Costa, Vilminha, Petit _ o menino dourado com um dragão tatuado no braço _ e outros mais que se tornaram celebridades, em total liberdade. Muitas trocas e grandes descobertas fazíamos juntos, sem medo de sermos felizes.Tudo era desconhecido, e valia à pena ser  explorado, experimentado. Não tínhamos a AIDS e  vivenciávamos a descoberta do corpo e os anseios da libido de uma maneira plena e saudável. Os sofrimentos advinham mais em função dos amores, intensos e nem sempre, como é comum a todas as paixões, o ideal de um relacionamento à dois. À princípio, todos eram príncipes, repletos de brilho e magia, a mexer com seu inconsciente mas, com o passar das horas, que por vezes duravam semana, o efeito inebriante passava e, como no dia seguinte a um grande porre, a rebordosa chegava e o sapo tomava o lugar do eleito, que se transformava no mais horroroso e inconcebível de todos os homens. As paixonites se aprofundandaram com passar das décadas, durando meses e depois anos, até que a última, que emplacou exatos sete, deixou-lhe de presente Radna _ sua filha querida e eternamente desejada.

A brisa suave da tarde trazia uma sensação de relaxamento, e pensar em Radna a fez chorar de amor, de amar. Momento esse em que se sentiu parte íntegra da Criação, bem sucedida tentativa do Criador, abençoada criatura.

Mas a estória agora era mesmo outra. Seu coração, antes tão exigido pelas experiências sentimentais, permanecia totalmente só. Meses se passavam sem que o toque carinhoso de um homem em seu corpo, antes tão solicitado, se fizesse sentir. Não podia culpar os hormônios, pois estes continuavam agindo, clandestinamente, levando-a a solitários prazeres. Muito bem-vindos, diga-se de passagem. A vontade de amar permanecia latente, mas os príncipes estavam escassos, e não reconhecia nenhum nos ogros de plantão. Tornara-se uma solitária mais por opção que por falta de oferta. A maturidade tem dessas coisas. Desenvolve-se uma visão, nem sempre preciosa, porém precisa, das pessoas e de certas situações. A vida nos dá esse respaldo. E dentro de um conceito totalmente Yunguiano, a tendência é que não se queira repetir o que nos fez mal e nos tirou a paz no passado. Conseqüentemente, perdemos o interesse naquela pessoa que já traz consigo o estigma do dejavù, do já experimentado sem resultados gratificantes. Vale também o outro lado da moeda, aqueles que deixaram em sua alma de Colombina felizes lembranças de Pierrot, mas que, mesmo assim, faziam agora parte de sua estória de vida, fosse lá o motivo que tivesse sido, pois, cada um é um, diferente, perfeito.

O farfalhar das ondas era o mesmo de milhares de eras atrás. Embalada por doces desejos deixou-se ficar a deriva, confiante. Acordou com uma voz que lhe pedia as horas, alguém desconhecido, mas muito, muito interessante.

imagem de Marcia

Adorei seu texto. Me fez viajar. É livre, leve e solto.
Marcia

imagem de Alexandre_Sandy

Tininha,
faz tempo que sou teu fã e admirador, só que nem eu sabia disso, muito menos você. Depois que li teu texto - falando de teus dois irmãos - descobri que tínhamos muito mais de familiar do que apenas termos frequentado o Píer na mesma época. O Thedim não era apenas o César, rsrrs....
Adoro teu estilo. Você sabe pilotar um teclado com maestria. Poucos conseguem isto.
Mais uma vez, parabéns pela lisura textual.
Beijão com gostinho de Eskybon...
Sandy

imagem de Cris

Doces tardes, tive as minhas também..juventude, latentes descobertas.Doces Tardes me fez rever a minha história em outro Pier, outra Gal, outro menino do Rio...em comum as doces tardes.E viva a maturidade.
Adorei o texto!
Parabéns Cris

imagem de  Marcia Rubim

Tininha,
como sempre imprimindo vida nas letras.
Parabéns minha querida,DOCES TARDES,me fez viajar na doce lembrança de uma das epocas mais lindas da minha vida.
Obrigada por este presente.
Beijos.
Marcia

imagem de Silvana

Amei!!! Quem do alto dos seus quarenta e poucos anos nao passou belas tardes de sol naquele pier, naquela praia, naquele bairro??? ai meu Deus!!!! Que delicia!!!!!!
bjs Chris!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

imagem de Gustavo

Silvaninha, diria eu lhe corrigindo: - Cinquenta e poucos anos. Eu tava lá com a minha Miçari hehehe.

imagem de Fábio Nascimento

Oi, Chris, como vai? lendo seu texto, quase pus uma sunga e fui à praia... Lembrei-me porém que estou em Minas, muito embora, especificamente onde moro, tenha uma praia de água doce adocicada pelo Velho Chico. Mas falemos de sua praia... Parabéns pelo seu texto, e parodiando o velho ditado: é de conto em conto que se contam várias estórias... rsss Mesmo ainda não conhecendo o Rio, não foi difícil imaginar o ambiente descrito. Assim como a areia faz a beleza da orla, as pessoas a beleza da vida, a palavra, fio condutor, nos leva e nos traz através das delícias imaginativas da nossa sensibilidade. Um grande e carinhoso beijo e continue nos presenteando com mais belos textos. Beijos, fique com Deus.