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O Pier de Ipanema e o bar Jangadeiro

Quando recebi o convite do Marco Coyote para falar a respeito do Jangadeiro no Site do Píer de Ipanema, achei que a tarefa seria simples. Ledo engano! Tanto o Píer, quanto o Janga não eram apenas instituições com endereço e topografia característicos de um bairro em que quase todos, pelo menos de vista, se conheciam. O Píer e o Jangadeiro iam e foram muito além da mera significação de lugares geográficos, eram um estado de espírito, uma filosofia de vida que, pela proximidade, proporcionaram várias interseções de fatos e acontecimentos.

Pier de Ipanema

O Píer teve uma existência mais efêmera do que o Jangadeiro, mas durante a existência comum destas duas entidades da contra-cultura, aconteceram no mundo todo vários tipos de revoluções sócio-culturais, cujos reflexos, aqui no Brasil, primeiro se manifestavam em Ipanema, leia-se Píer, Janga, Arpoador, Bruni 70 (aliás abro este parêntese para dar o devido mérito ao Livinho Bruni por ter feito do Cinema Bruni 70, antigo prédio onde antes funcionou a TV Excelsior, um reduto onde as pessoas que freqüentavam o Píer pela manhã e à tarde obtinham um refúgio noturno confortável, onde se assistia a bons filmes de surf e onde ocorreram vários shows dignos de nota), Castelinho, enfim, num pedaço mínimo de terra que ia da Otávio Bhering ao Jardim de Allah, para depois espalharem-se Pindorama afora.

Podemos dizer que havia uma cumplicidade espontânea entre um e outro. Enquanto o Jangadeiro foi palco do Cinema Novo, da Bossa Nova, da Banda de Ipanema e de outras manifestações veladas de repúdio à censura do regime político pós 64, tendo como principal porta-voz o Pasquim, o Píer sediou lançamentos de modas por ser o único lugar, à época, onde a liberdade de expressão não era coibida pela repressão. Claro que a polícia foi em ambos os lugares, no entanto, havia uma aura de tranqüilidade tão intensa que a própria autoridade passou a respeitar, como se dissessem: estes malucos são inofensivos, são da Paz! E, de fato, éramos amantes da Paz!

Se existe um Céu, há certamente, um lugarzinho onde há uma praia, algumas pilastras metálicas que fazem com que o fundo de areia proporcione boas ondas e, atravessando a rua, um bar onde a sede e a fome são saciados por uma infinidade de próceres que já não estão mais em convívio conosco, os sobreviventes. Neste Céu, surfistas de pele morena e corpos atléticos ornados com as indefectíveis e indeléveis tatuagens estão se confraternizando, harmonicamente, com os franzinos, ictéricos e cianóticos intelectuais, numa dicotomia apenas estética, com linguajar codificado, mas compreensível às duas tribos, guardando perenemente a juventude, enquanto envelhecemos entremeados de recordações de tempos que não voltam mais. Estou tentando evitar citar nomes, pois, certamente, me esqueceria de algum bebum que fez história, ou de algum desbravador de mares com cabelo louro de parafina e acabaria cometendo injustiças. Forço-me para fazer esta omissão para também não fazer deste texto um catálogo com miríades de pessoas que marcaram nossas vidas, a começar por meus dois irmãos, Bingue e Ruy.

No início da década de 70 eu era um pré-adolescente que, justamente, por isso, tinha bom trânsito tanto no Píer, quanto no Jangadeiro. Era um atento voyeur das transformações que só quando adulto pude compreender e que prestava atenção a tudo que acontecia ao meu redor. Há imagens e fatos de que não me esqueço, outros que acabei sabendo, quer pela leitura do Jornal de Ipanema do saudoso amigo Mário Peixoto, ou do Pasquim do, ainda vivo, mas não menos amigo, Jaguar, quer por narrativas que, incondicionalmente, faziam e fazem parte das conversas em torno de fogueiras de acampamentos em Itaúna, Ferradura, e hoje, com mais tecnologia, nos chats e nas trocas de mensagens no Orkut (onde , aliás, vim reencontrar várias pessoas que fizeram história, dentre elas, Coyote).

São relatos que vivi e histórias que escutei que farão parte desta coluna, cujo desafio de redigir topei com muita satisfação.

Sandy

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