1970 - O ano que o Arpoador mudou-se para Ipanema
O que parecia impossível aconteceu. Aquele monte de ferro cravado na areia, avançando para o mar, atrai para si não só as ondas como também toda a galera que habitava o paraíso dos anos 60, o nosso querido Arpoador.
Tem início a era "Pier de Ipanema". Não vou entrar no mérito de quem foi o primeiro a surfar as tubulares e perfeitas ondas, como também a freqüentar as famosas dunas, pois foi uma mudança coletiva, num curto espaço de tempo o Arpoador foi perdendo toda "Sua Majestade" para aquele point artificial, que durante cinco anos iria reinar absoluto. Um novo "Oasis" em plena ditadura se formara, dando início a um novo ciclo de convivência entre surfistas, artistas, intelectuais e amantes da vida livre, sem preconceitos e violência.
Porém uma coisa temos de admitir, o que levou toda esta galera para lá, foi o surf. Não fosse a mudança radical dos surfistas, atraídos por aquelas ondas perfeitas que passaram o bombar no píer, nada disso teria acontecido. O píer de Ipanema marcou a vida de todos que tiveram o privilégio de surfar as suas ondas.
Só com alguma experiência era possível dropar aquelas ondas nos dias grandes. A maioria da rapaziada ficava na areia ou bem afastada do pico que quebrava colado ao píer, foi uma fase fantástica na história do surf carioca. As ondas que quebravam para direita, ou "back door" como eram conhecidas, eram mais curtas, porém mais tubulares e mais difíceis de dropar, mas as esquerdas também não deixavam nada a desejar em relação às direitas, muitos tubos e paredes perfeitas se formavam para deleite dos surfistas. Enquanto isto na areia a confraternização era geral, de domingo a domingo.
A galera se encontrava não só durante o dia como também nos fins de tarde, para assistir o por do Sol de cima das dunas formadas pela retirada de areia para dar lugar à tubulação que estava sendo instalada mar adentro. Todo dia era dia de festa, violão, flauta e um bom bate papo faziam parte das reuniões diárias que aconteciam naturalmente, sem nenhum compromisso com hora e dia marcado. Havia paz em meio a uma ditadura repressiva que rolava fora das nossas fronteiras. A única coisa capaz de dispersar a rapaziada era a chuva, mas mesmo assim com muita alegria nos retirávamos do nosso local, pois chuva é benção de DEUS.
Foi com muita tristeza que assistimos o desmonte daquele que foi um marco na vida de algumas gerações. Mas a alegria continuou, o Arpoador volta a ter seu lugar de destaque que sempre mereceu. Porém a sua privacidade começa a perder lugar para uma invasão de pessoas que nada tinham a ver com a sua originalidade, muitos de nós se mudam para a Barra da Tijuca e a Prainha que chegou a ser considerado um secret com o nome de "leprosário" nos anos 60, quando não havia como chegar lá de carro, com a construção de uma estrada de acesso começa a atrair a atenção daqueles que buscavam um novo oásis para confraternizar. Uma nova era começa para a galera do surf e logo em seguida, é lógico, ganha fama no meio dos seus seguidores. Começa tudo de novo…
Mas esta é uma nova história…
Aos 12 anos (1962), Ceceu foi ao Clube Marimbás, em Copacabana, onde pretendia caçar uns peixinhos para o almoço. O mar estava "viradão" e ele teve seu primeiro contato com o surf e com as genuínas pranchas cariocas, carinhosamente chamadas de "madeirit".