Se não me telefonar aquela gringa
Me arranja aí uma caneta, minha Flor
Porque, ao beber, me sinto escritor;
Antes que passe o efeito do vinho,
Vou gravar, ao menos por instinto,
Cada espasmo esparso de inspiração.
Aqui, no velho restaurante do mercado,
Simples, limpinho e bem freqüentado
Lembrei-me, sorrindo, de um ex-amor,
E que não evito ser gaiato nem na dor.
Briguei com ela, um dia, e quis morrer
Mas, me diz, como alguém pode sofrer,
Por mais de dez minutos e se suicidar
Se este sol do Rio insiste em brilhar?
Tento emprestar a quase todo ex-amor
O quê de drama e liturgia solene da dor
Destes poetas à vera que reverenciam
Os grandes momentos que evidenciam
A marca dos sentimentos mais nobres
Que não findam em homéricos porres.
Pois pensei me suicidar no Rio de Janeiro.
Mas como morrer, de amor ou desespero,
Se as vagas bundas de insinuantes crioulas,
Os olhos de mar destas mil meninas louras,
E destas – nem sei quantas - judias ruivas
Ou levantinas, risos fartos e nariz aquilino
Me invocam fantasias que aprendi, menino ?
Se por um dia, um minuto ou um segundo,
De insânia, eu decidir desertar do mundo
Me batam, me arrastem, com toda força,
Me embarquem, manos, na nave louca,
A demandar, rumo certo: o primeiro bar;
Não precisa ser daqueles junto ao mar:
Seja ali, nas ruas mansas de Botafogo,
Para que, ao aspirar o perfume caboclo
Das judias, negras, turcas, japas, louras,
Elas me salvem, respiração boca a boca;
Pois a quem sobejar um pingo de juízo,
Não pode desertar, solteiro, no paraíso.
Por isto, vamos tomar mais uma, amigo,
E amanhã, se não der praia, me suicido,
Se antes não assassinar mais outra rima
Ou, se não me telefonar aquela gringa .
30 dez 2006
Ex-cunhado, jogador de futebol de areia, jamais subiu numa prancha. Mas lembra-se bem da turma se ligando às cinco da matina para informar se ia dar ondas. Somos privilegiados por havermos vivido aqueles anos setenta no Rio e em Ipanema - Copacabana.