Fred d'Orey

Localismo do bem

A decadência do Arpoador é a decadência do Rio. É a decadência do Brasil. É o nosso país indo pro ralo e levando tudo junto. As cidades ficando cada vez mais perigosas, as praias mais poluídas, as pessoas mais desesperadas. Me lembro quando eu tinha uns 10 anos, de brincar a noite de polícia e ladrão no Arpoador, valendo a pedra toda. Eu e mais uns 20 moleques. A gente surfava de dia e brincava de noite. Não tinha perigo, não tinha violência. Trinta anos se passaram. Sentado nessas mesmas pedras com meu filho, contei isso a ele, que me olhou atônito. "Mas não tinha violência? Papa, você teve muita sorte", exclamou. Ele tem razão. Tive mesmo. O Arpex daqueles tempos era uma maravilha. E o Rio, e o Brasil, ainda não tinham virado a porcaria que virou. Mas não precisa ser nenhum gênio pra entender que já desde os tempos da carochinha estamos todos sentados bem em cima de uma bomba relógio.

Embarcando no Trem da Competição

Os últimos quinze anos do surf brasileiro foram tão impregnados de competição que é quase impossível imaginar o que havia antes desse festival de baterias. Hoje nós temos circuitos de longboard, grommet, feminino, amador, profissional, master, iniciante. Tem também, mundo à fora, eventos especiais em ondas gigantes, expression sessions, formatos diferentes como o que rolou em Mentawaii com apenas oito convidados, e mais ainda está por vir porque os departamentos de marqueting das marcas têm que quebrar o côco e surgir continuamente com novas formas de capturar a mídia e o volúvel interesse da massa, já  tão bombardeada por tantas novidades.

A Primeira Prancha a Gente Nunca Mais Esquece

1969. Não tirava o olho do mar. Minha família tinha um apartamento no Guarujá, no prédio Perequê, 4º andar, e eu ficava horas olhando lá de cima, hipnotizado pelas ondas de Pitangueiras. Foi meu primeiro contato com o surf. De férias, minha avó me levava pra praia todo dia, mas eu não queria saber nem de baldinho nem de castelo de areia. Meu negócio era ficar olhando os caras surfar. Mais que isso, pois eu sempre dava um jeito de tirar uma casquinha.

Vinte e Cinco Anos de Espera

North Shore, Oahu, country. Câmera ultra lenta. Filmado de dentro d'água. Buttons dropa uma direita de 6 pés. Verde. A câmera é lenta. Muito lenta. O drop não é bem um drop, mais uma desgarrada. Controlada, fluida, a prancha segue absoluta na base da onda. O cara estica o braço e encosta na parede os dedos da mão direita. E vai desaparecendo atrás do lip.

Outras Ondas de Fred d'Orey

OUTRAS ONDAS, Editora Gaia, 296 páginas, é a reunião das crônicas de Fred d'Orey publicadas mensalmente na revista FLUIR nos últimos oito anos. Fundador e editor do primeiro jornal de surf na década de 1980 – STAFF –, editor da mesma FLUIR nos seus primórdios, Fred d'Orey sempre esteve presente na divulgação e reflexão sobre esse esporte, que é quase uma profissão de fé, um life style para seus praticantes.

Saudades do que não vivi

Texto extraído de seu livro Outras Ondas.

Apesar dos meus 40 anos de vida e 30 de surf, não fico nem um pouco melancólico quando lembro das coisas que vivi na praia. Folhear álbuns antigos de fotos e assistir aos meus filmes da década de 80 me dão o maior prazer, nunca tristeza. Não sou saudosista. Não entro nessa de que "na minha época era muito melhor". Outro dia, pensando nisso cheguei à conclusão de que tenho mesmo é saudades do que não vivi. Não chega a ser um caso grave de ansiedade. Não deito no divã do analista e fico remoendo emoções projetadas. Só acho que cheguei atrasado pra festa em pelo menos uma década. Queria ter curtido algumas coisas, surfado algumas ondas, conhecido alguns lugares numa outra época que não a minha.

4ª Mostra de Cinema Rock & Totem

7 dias de som e imagem

19 a 25 de novembro de 2010

Estação Ipanema - Rua Visconde de Pirajá, 605
Ipanema - Rio de Janeiro - RJ

Entrada Franca

Doe um livro infantil e troque por seu ingresso 1 hora antes de cada sessão (lugar marcado) na loja Totem Ipanema (Visconde de Pirajá, 550)
 

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